Lídia Jorge - A Noite das Mulheres CantorasAcabei de ler no fim-de-semana o último livro de Lídia Jorge, A Noite das Mulheres Cantoras. Não sendo crítico literário, longe disso, bastar-me-ia esta obra para me tornar um fã indefectível da autora.
Lídia Jorge, possuidora de um invulgar talento narrativo, tem o mérito quase único de cavar personagens com alma, de transformar ficções em histórias que parecem reais, de forçar os leitores a entrarem na cabeça das personagens. O que me aconteceu, à semelhança de outras grandes obras como A Costa dos Murmúrios, O Vento Assobiando nas Gruas, O Dia dos Prodígios, Combateremos a Sombra, e tantas outras, o que me aconteceu, dizia, foi chegar à última página com um estranho sentido de perda: o de não poder continuar a ouvir Solange de Matos, a narradora da história, Gisela Batista, a maestrina do grupo, João de Lucena, o coreógrafo, as irmãs Alcides ou a fabulosa e intrigante Madalena Micaia, a personagem que nos liga a África.
«Queremos encantar. Queremos vencer encantando, seduzindo. Tão simples quanto isto, não to escondemos. Queremos encantar pessoas, milhares, milhões de pessoas. Queremos ser maiores do que cada uma delas e do que todas no seu conjunto, queremos ter uma habilidade que elas não têm. Queremos entrar-lhes pelos ouvidos, pelos olhos, pelos nervos, pelo corpo todo. Entendes? Por isso, elas vão ficar paradas, à espera, e nós na sua frente, seduzindo-as, colando-as aos seus lugares, hipnotizando-as, desvairando-as com o nosso talento. Plateias, salas inteiras, recintos completos de gente submetida por encantamento à nossa música. Queremos o mundo. Queremos fazer amor com o mundo, entregando-lhe a nossa música e recebendo em troca tudo o que o mundo tem para nos dar. Só isso.»
Idolatria, endeusamento, temas a que Lídia Jorge recorre para mostrar o que faz agir o ser humano.
«Cantámos tão bem, a execução correu tão fluida nessa tarde, com as árvores do Inverno a agitarem os braços despidos rente aos vidros, e o chá de Gisela, o café de Gisela, os biscoitos de Gisela souberam tão bem durante as pausas, que eu compreendi que o céu poderia ser alcançado através de veredas que atravessassem campos onde as árvores, sozinhas, caminhassem falando.»
Para além de ter essa coisa mágica que é a de saber colocar as palavras certas no sítio certo, Lídia Jorge leva-nos a percorrer não apenas a história contemporânea portuguesa das duas últimas décadas, mas as suas raízes. Ler A Noite das Mulheres Cantoras, é entrar no Reino da Música e das sensações, é entrar na psique humana das Giselas, das belas Giselas, fortes e conhecedoras, da autoridade dos Simons, dos grandes Simons, das teias cruéis das relações humanas, das traições para sobreviver, do acordar para o amor.
A obra de Lídia Jorge é muito mais do que uma história bem contada, muito mais do que uma boa surpresa... Bela narrativa, grande literatura, um livro que ninguém pode deixar de ler. Data: 2011-04-14 10:12:54 | Comentários (0) ![]() Assobio Rebelde - Geração à rascaPor norma não costumo divulgar as ideias de pensadores conhecidos. Por uma razão muito simples: elas circulam na Internet.
Mas as ideias sobre o tema «Geração à rasca» são tão profundas e elucidativas (vidé blog com o mesmo nome), que é uma pena não lê-las. Vale a pena ler e reflectir.
Mia Couto - Geração à Rasca - A Nossa Culpa "Um dia, isto tinha de acontecer.
Data: 2011-03-23 09:57:42 | Comentários (0) ![]() Dia da MulherA todas as mulheres,
Pode parecer puro lisonjeio, pode parecer que sou lamecha, pode parecer até outra coisa qualquer, pouco me importa, o que quero mesmo – no dia em que se assinala pela centésima vez o Dia da Mulher –, é manifestar o apreço e gratidão às mulheres, a todas sem excepção, quer se trate da mulher que me deu a vida, quer se trate da minha própria filha, das minhas irmãs, das mulheres que conheço e adoro, das minhas amigas que muito prezo, das mulheres que mal conheço e que gostaria de conhecer melhor, das mulheres que não conheço e que provavelmente nunca conhecerei, das mulheres que em todos os cantos semeiam amor e afeição tornando o mundo melhor. Data: 2011-03-08 16:38:19 | Comentários (1) ![]() E venha depressa o 2011!2010 foi um ano implacável que nos fez tremer e suar em bico! Deu para rir, chorar e deu para pensar.
A poucas horas do novo ano e em jeito de despedida, gostaria de desejar a todos os que conheço e não conheço e a todos os amigos, um Ano Novo com menos tempestades e mais alegrias. Um ano com menos incertezas, com menos crises, com menos ódios, com menos ganâncias, com menos escândalos, com menos catástrofes naturais, com menos meteóricas acumulações de riqueza e menos sacos azuis, com menos reformas milionárias, e já agora com menos bla-bla-bla!
Gostaria muito de desejar a todos um Ano Novo com saúde, com mais harmonia, com mais alegria, com boas realizações, um ano em que haja mais humanidade, mais tolerância, mais ética, mais respeito uns pelos outros.
Boa sorte! Data: 2010-12-30 11:30:52 | Comentários (0) ![]() Acupunctura a PortugalUma dor no ombro ligeiramente incomodativa, primeiro, uma outra quase incapacitante, depois. A vida ensina-nos que para ficarmos empenados não é preciso muito! Voltando ao meu ombro, pois é dele que falo, comecei a vê-lo enrijecer e a certa altura o danado disse-me mesmo que declararia greve por tempo indeterminado, se eu continuasse horas e horas agarrado ao computador. «Para já, contenta-te com uma tendinite», disse-me, com muito maus modos. Daí à fisioterapia foi um passo, daí à acupunctura foi outro imediatamente a seguir.
E foi a olhar para o tecto com agulhas espetadas da palma da mão à omoplata, que acabei por adormecer e sonhar que Portugal, mesmo ao lado de mim, também fora submetido a uma sessão de acupunctura! E eram tantas as agulhas... Agulhas e agulhas nos Partidos que têm sido poder e que põem o poder à frente da política; agulhas nos Partidos da oposição; agulhas profundas na Educação, na Justiça, na Agricultura que mal se vê, na nossa pobre e moribunda Indústria, nas Pescas, numa boa parte das Autarquias; agulhas na tenebrosa espuma das reformas milionárias. Numa palavra, caixas e caixas de agulhas para tratar de um país em carne viva.
Da próxima vez coloco umas palas nos olhos para não voltar a adormecer! Data: 2010-11-12 15:53:17 | Comentários (0) ![]() |
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