"Que fantasmas se agarravam ao meu pai a ponto de o fazer passar do mimo e da ternura à violência? Para já basta-me pensar que a guerra muito terá concorrido para o vaivém das suas sombras. A palavra guerra deve ter as respostas que ele nunca me deu: a ocupação, as patrulhas, as emboscadas, os bombardeamentos, as rajadas, as crateras, os mortos e feridos, os gritos e gemidos, o medo, os corpos decepados, o sangue, a necessidade de matar para não morrer. Da guerra sobejavam outras tantas razões, uma voz interior diz-me que não é preciso procurar mais.
Terei de aprender a conviver com os farrapos das minhas velhas memórias, sacudindo o mal e enterrando os velhos rancores. O meu pai, o Ivo, os acontecimentos da Casa dos Francesco, fizeram parte da minha caminhada. Tenho-me lembrado muito do amor da minha vida, de detalhes de que nunca falei: das nossas idas à Serra da Arrábida, dos beijos que dávamos ao pôr-do-sol, dos nossos passeios, da areia da praia, das searas de trigo, dos nossos amigos, das prendas que trocávamos, do nosso despertar, do que fazíamos e sonhámos fazer."